Abertura do livro
Crônica das Crônicas
Outro dia um amigo me perguntou, meio desconfiado, como quem puxa conversa na mesa de bar:
— Mas, afinal, de onde você tira tanta história?
Pensei um pouco antes de responder e cheguei à conclusão de que não tiro de lugar nenhum. Elas já estavam todas guardadas dentro de mim, esperando apenas que alguém abrisse a porta da lembrança.
Comecei a escrever sem muito compromisso. Uma lembrança puxava outra e, quando percebi, estava falando do Bar Pracinha, da Kiskina, do sorvete do seu Abdo, dos picolés do meu avô Vicente, dos domingos de futebol no Plínio Bastos de Barros e das conversas intermináveis na Rua Direita.
Cada crônica parecia um reencontro.
Reencontro com amigos que o tempo espalhou pelo mundo, com personagens da nossa Miracema e com lugares que talvez já nem existam mais, mas continuam firmes na memória de quem viveu aqueles tempos.
Descobri então uma coisa curiosa: quando escrevo uma crônica, não estou apenas contando uma história. Estou chamando de volta um pedaço da vida.
Aparece o boleiro que jura ter decidido um jogo sozinho, o freguês fiel do picolé Sibéria, o companheiro de bar que sempre tem um “causo” melhor que o nosso, ou aquele amigo que o tempo levou, mas que continua sentado em alguma mesa da lembrança.
E assim fui juntando histórias.
Uma sobre futebol, outra sobre bar, outra sobre música, outra sobre cinema, outra sobre amigos que a vida transformou em irmãos.
Quando dei por mim, percebi que não estava escrevendo apenas crônicas.
Estava, sem querer, escrevendo um pedaço da história da nossa Miracema.
Porque cidade pequena tem uma coisa bonita: ninguém vive sozinho. A vida de um acaba sempre misturada com a do outro.
Por isso, quando algum amigo me pergunta sobre essas crônicas, respondo com a maior sinceridade do mundo:
— Eu não escrevo crônicas. Eu apenas converso com a memória.
E, se depender das histórias que ainda aparecem nas esquinas da lembrança, essa conversa ainda vai longe.
Comentários
Postar um comentário