Tempo de Dobrado e Microfone
Do Dobrado ao Microfone
O dobrado exige firmeza.
Ele não permite hesitação na entrada. Se o piston entra atrasado, compromete o conjunto. Se adianta, atropela o ritmo. É música que ensina responsabilidade coletiva.
Sem perceber, eu estava treinando para outra coisa.
Anos depois, diante de um microfone, percebi que a lógica era a mesma.
Narrar um jogo é como executar um dobrado:
há introdução, desenvolvimento, explosão e cadência final.
há silêncio que precisa ser respeitado.
há momento exato de entrar com a voz.
No coreto, aprendi projeção.
Na Banda Sete, aprendi disciplina.
Com o maestro, aprendi ritmo.
Com o piston, aprendi fôlego.
No rádio, juntei tudo.
O dobrado me ensinou a esperar o tempo da música.
O rádio me ensinou a sentir o tempo do público.
E talvez por isso eu nunca tenha tido medo de microfone. O medo já tinha sido vencido lá atrás, quando o garoto de 14 anos precisava sustentar uma nota no meio da praça, sob o olhar atento do maestro e dos companheiros de banda.
O metal do piston virou voz.
O compasso virou narração.
O desfile virou transmissão.
E se hoje alguém pergunta onde começou essa história de rádio, eu poderia responder: começou no coreto.
Mas a verdade é que começou antes.
Começou no dobrado.

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