Um gol inusitado

 

            O ÚLTIMO GOL DO BELISCA

Os apostadores de plantão no Estádio Plínio Bastos de Barros adoravam um bom papo de bola depois das rodadas do Campeonato Municipal.

Naquele domingo quente e morrinhento — em tempos em que a televisão ainda não mostrava futebol o dia inteiro — o passatempo eram as fofocas e as discussões sobre o futebol local e sobre o que de melhor havia acontecido na rodada.

A turma se reunia sempre no mesmo horário e no mesmo lugar: o boteco do João Custódio.

Depois de algumas rodadas de cerveja e pingas, a conversa, que já estava esquentando, chegou ao ponto alto do jogo preliminar — aquele “esquenta-sol” das treze horas — disputado entre Flores e Comércio.

Quem viu aquela cena jamais esqueceu.

Vicente, ex-jogador do Miracema e acostumado a ver coisas incríveis no futebol, não se conteve:

— Meus amigos, isso que aconteceu hoje não é novidade nenhuma. O Tote, goleiro do Comércio, só traz problema para o time. Quando não é um frango, é uma cena hilariante como a de hoje.

Mais irritado ainda estava Samuel, que bradava para todos ouvirem:

— O cara prometeu colocar em campo um timaço! Fiz uma aposta pesada e levei prejuízo. Amanhã vou ter uma conversa séria com ele lá na barbearia.

Wilian, conhecido como Alemão, caiu na gargalhada:

— Sei não, Samuel… Se você for tirar satisfação com o barbeiro, é melhor trocar de salão. Vai que ele guarda raiva e você aparece lá para fazer a barba… A navalha obedece à mão do dono!

— Vira essa boca pra lá, Alemão! — respondeu Samuel. — Eu não esqueço dessas coisas, não. Quero é meu dinheiro de volta!

Em outra mesa do botequim estavam alguns apostadores que haviam se dado bem apostando no adversário do Comércio.

Fachada, torcedor fanático do rubro-negro, estava radiante:

— Estamos vivendo bons momentos com nosso time… mas um domingo como este vai ser difícil esquecer!

O problema é que muita gente ali não havia ido ao estádio e não entendia nada da conversa. Ninguém queria contar direito o que tinha acontecido.

Seu João Custódio, ainda incrédulo com a história, se recusava a explicar:

— Melhor deixar isso pra lá… vai que o freguês se ofende.

A curiosidade só aumentava.

Todos aguardavam a chegada do personagem principal da história.

Por volta das sete da noite, quando boa parte da freguesia já apresentava um respeitável grau etílico, apareceu Belisca.

Chegou meio constrangido, um pouco fora de sintonia.

Não era para menos.

Naquele dia ele havia cometido um ato insólito — e, para um artilheiro como ele, aquilo quase representava o fim de uma bonita carreira.

Vicente, amigo pessoal de Belisca, logo puxou conversa:

— Vem cá, Belisca. Senta aqui. O Tote já passou por aqui e disse que entendeu sua atitude.

Belisca deu um gole na cerveja e respondeu, tranquilo:

— Que nada, Vicente… Não guardo bronca, não. Pra falar a verdade, até estou achando tudo bem divertido.

Foi a deixa que Seu João Custódio precisava.

O boteco inteiro ficou em silêncio.

— Conta logo, Belisca! — pediu Onofre, já impaciente.

E o artilheiro começou:

— O Samuel sabe que eu tinha razão. O Tote prometeu um time competitivo, cheio de reforços… mas quando entramos em campo éramos só dez jogadores.

— Dez? — espantou-se alguém.

— Dez. E a coisa só piorou. O Edil começou a mandar no jogo, nossa zaga era puro bagaço e o Tote levou um frango atrás do outro.

Quando vimos, já estava 6 a 0.

E o nosso time… com oito jogadores em campo.

Dois saíram esgotados e um outro mal conseguia andar.

Onofre não aguentou:

— E daí? Conta logo o que você fez!

Belisca respirou fundo e continuou:

— Com sete jogadores em campo, eu tinha que tomar uma atitude. Peguei a bola na nossa área, driblei um atacante adversário… e mirei na cara do Tote.

— Na cara do goleiro?! — gritou alguém.

— Exatamente.

— E aí?

— Ele saiu da frente.

Silêncio no botequim.

Belisca concluiu:

— A bola entrou estufando a rede.

Gol contra?!

— Gol contra.

— Mas por quê?!

Belisca levantou o copo e respondeu, com a maior naturalidade do mundo:

— Porque eu queria dar uma bolada na cara do nosso goleiro… responsável pelo maior vexame da minha carreira.

As gargalhadas ecoaram pelo boteco.

Dias depois encontrei Belisca no centro e perguntei se poderia publicar esta história.

Ele autorizou.

Apenas pediu um detalhe:

— Diz que alguns personagens são fictícios.

E assim faço.

Os personagens podem até ser fictícios…

Mas a história é verdadeira. 



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