Uma Herança de Gigantes
O Guardião das Memórias de Miracema
O ar da tarde em Miracema pairava doce e carregado de histórias. A pergunta surgiu em meio a um burburinho rápido, como folha levada por um sopro: "De onde vem tanta inspiração e conhecimento para contar os causos da cidade?". Sinceramente, eu sempre sorria com um quê de melancolia e gratidão. Não era apenas inspiração; era sabedoria de fato, um legado gravado em meu ser.
Essa herança eu recebi, não em ouro ou joias, mas nas conversas fiadas, nos olhares cúmplices, nas amizades preciosas que cercaram meu avô, Vicente Dutra, meu pai, Zebinho, e meu tio Ari. Ah, meu tio Ari! Foi ele quem, com um brilho nos olhos, me plantou a semente do gosto pelas crônicas alheias.
Desde menino, fui aprendiz dos mais velhos. Meu avô, um guardião de saberes, me apresentou a um nome que ressoava como um trovão em nossa história: Altivo Mendes Linhares. No balcão do nosso bar, o Capitão, com sua carapuça de "bravo" mas com alma juvenil, não perdia tempo. Para ele, era um prazer imenso "perder seu tempo" contando as façanhas de outrora, desfiando o manto da Miracema antiga para meus ouvidos atentos. Ele, para mim, foi o primeiro grande arauto das histórias que eu viria a ecoar.As rodas de prosa do meu pai também me moldaram. Os companheiros de sua jornada – Altair Tostes, Jofre Salim, Michel Salim, Amadeu Poly, Erasmo Tostes – tornaram-se meus próprios mestres. Mesas de cerveja e café viraram cátedras onde aprendi a arte da boa conversa. Com Jofre, então, meu deleite era o som de sua oratória singular nas manhãs de domingo, sempre em boa companhia do fiel Michel. Era um deleite ouvir suas ricas conversas.
O ano de 1975 me viu iniciar nos mistérios da Maçonaria, guiado por Altair Tostes. Com Farid Salim, lapidei a arte de me expressar em público, e com o professor Télio Mercante, o inesquecível "Ferrugem", desvendei os tesouros dos jornais antigos e mergulhei na vida pregressa da Prefeitura e seus ilustres – e nem tão ilustres assim – governantes.
E havia José de Carvalho, o "Zé Colado", eleito pela gente simples, um amigo do peito da nossa família Dutra. A ele, devo a lição mais valiosa da "conversa ao pé do ouvido" e a constatação de que, muitas vezes, o silêncio que escuta é mais eloquente que mil palavras. Bem, confesso que essa última parte não apliquei tão fervorosamente… Afinal, quem me conhece sabe do meu amor pelas falas!
Os anos 80 me levaram a São Paulo, onde outro mestre, José Maria de Aquino, me apresentou seu irmão, Paulo Moledo. Era curioso ver o espanto de Paulo, homem vinte anos mais velho, ao me ouvir narrar com vivacidade e detalhe os eventos e personagens de sua própria juventude. "Mas como você conhece tudo isso?", ele me perguntava, maravilhado.
A resposta era tão simples quanto mágica. Além dos mestres que cruzaram meu caminho, meu tio Átila guardou uma joia: uma coleção encadernada de jornais antigos. Nelas, devorei desde a luta pela Emancipação até as pelejas nos gramados de outrora. Por isso, os craques dos anos 30 vivem em minha memória como se eu estivesse lá, vibrando com o Miracema FC, especialmente naquele jogo que marcou uma era, até a derrota para o lendário time do Chicrala Amim.
E assim me tornei, nesta Miracema de minhas raízes, o guardião dos causos. Cresci à sombra de gigantes, ouvindo, entre o tilintar de copos no Vicente Dutra e o burburinho das mesas da cidade, a epopeia de nossos líderes e heróis esportivos. No futebol, tive a sorte de ter mestres como Gerson de Alvim Coimbra e Alcir Fernandes de Oliveira, o sempre lembrado Maninho.
Minha escrita não é vaidade nem invenção. É a voz dos que me precederam, o eco generoso das palavras e vidas que, incansavelmente, moldaram meu olhar para a nossa querida "terrinha". Cada conto, cada memória resgatada, é um tributo a eles, os verdadeiros inspiradores de Miracema.

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