As figurinhas carimbadas
Bafo-bafo na Praça
Estávamos na beira do meio-fio, descalços, sem camisa e com o corpo brilhando de suor, depois de horas correndo atrás da bola no rink da Praça Dona Ermelinda. Eu, Júlio e Gutinho iniciávamos um bafo-bafo para disputar as últimas figurinhas do embornal das repetidas — aquelas que sobravam, esquecidas, sem charme algum, porque eram fáceis demais.
A primeira a entrar no tapa — porque bafo é isso: tapa ou muito jeito pra virar de cara pra cima — foi logo uma do goleiro mexicano Carbajal. Já veterano naquela época, sem apelo comercial nenhum nos álbuns vendidos nas padarias, junto com as balas recheadas de figurinhas.
Cada página completada valia um prêmio: relógio, rádio, panela… e até um fogão a gás, novidade absoluta naquele distante 1962. O curioso é que ninguém — nem mesmo os idealizadores da coleção — imaginou a Tchecoslováquia numa final contra o Brasil. Resultado: seus melhores jogadores não eram “carimbados”, e nomes como Masopust, Pluskal e o goleiro Schrojf apareciam aos montes nos embornais das repetidas.
Era uma febre. E foi aí que eu viciei em colecionar álbuns de figurinhas.
Até pouco tempo atrás — antes da última e definitiva mudança — ainda guardava, em algum canto da casa da Pereira Nunes, no bairro Pelinca, algumas figurinhas tipo card, daquelas do chiclete famoso dos anos 70. As das balas mais antigas repassei para o Gustavo Rabelo. Devem estar por lá, escondidas em alguma gaveta, esperando outra infância acontecer.
O melhor de colecionar figurinhas era aprender, sem perceber, o sentido de uma Copa do Mundo: o país-sede, sua geografia, sua história. No álbum do Chile, por exemplo, a gente descobria que o país ficava na Cordilheira dos Andes, que era considerado o mais europeizado da América do Sul, e que Santiago — a capital — era linda e marcada pela colonização europeia. Não à toa, o pessoal do velho continente se sentia em casa jogando por lá.
Na hora das trocas, havia hierarquia. Trocar um Canhoteiro por um Garrincha era impossível. Gilmar por Djalma Santos já era negociável — o goleiro era titular, o lateral ainda brigava por posição com De Sordi. Nilton Santos era difícil. Vavá, nem tanto.
O curioso mesmo era Pelé não ser carimbado. E Canhoteiro — que nem foi à Copa — ser uma das figurinhas mais raras. Ídolo em São Paulo, rivalizava com Garrincha por lá, mas no interior do Rio poucos o conheciam. Só os mais fanáticos, que ouviam as transmissões da Rádio Record ou da Pan-Americana, que, aliás, pegavam melhor do que muito rádio de hoje nos velhos aparelhos dos nossos avós.
As calçadas ao redor da Igreja Matriz viviam tomadas de guris. A correria para completar uma página era coisa séria. A padaria do Garibaldi já não dava conta da demanda. Até que alguém descobriu: na Rua da Laje, numa venda em frente ao Prudente de Moraes, tinha chegado um lote novo, com figurinhas diferentes.
Acabou o sossego.
A molecada invadiu o balcão e, em menos de dez minutos, as balas estavam todas detonadas. O bafo-bafo mudou de endereço: saiu da Praça da Matriz e foi parar na Rua da Laje, bem em frente ao grupo escolar. Era uma festa nova para a turma lá de cima.
Depois vieram álbuns mais sofisticados — os das Copas de 70 e 74, mais elaborados, já com um certo ar de modernidade, bem ao estilo italiano de seduzir colecionadores.
Ah, e antes que eu esqueça: ninguém jamais soube se algum colecionador ganhou o tal fogão a gás prometido pela editora.
Relógios e canetas… esses até apareceram.
Mas o fogão…

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