Bola no quintal
Meu avô, mestre nessas artimanhas, entrou em cena. Eu era o mais novo da turma que batia o racha na Rua José da Silva Bastos. Os grandões — Ló, Scilio, Hércules, Marcinho, Nivaldo e outros — não queriam nem saber de me escalar. Alguns até tentavam me puxar para seus times, mas os “donos” do pedaço não davam brecha.
Vovô Vicente Dutra, me vendo sempre sentado, só assistindo, um dia perguntou: — Por que você não joga com eles? Você joga melhor do que muito marmanjo aí. — Eles são grandes, vovô… não quero atrapalhar. E, se eu insistir, ainda levo uns coques.
Ele deu aquele meio sorriso de quem já tinha um plano: — Deixa comigo. Você vai jogar todos os dias. Quer ver?
Foi até o quintal, trancou o portão de madeira grossa com cadeado e soltou o cachorro da corrente. — Aqui ninguém entra. Está combinado? Enquanto o Adilson não jogar, não tem devolução de bola.
E era tiro e queda: a bola caía no quintal ou na horta da vovó Maria a todo instante. Só que, a partir dali, estava proibido entrar para buscar. Resultado? O racha acabava assim que as duas bolas ficavam presas lá dentro.
Não demorou muito. O Scilio me chamou de lado: — Penacho, fica no gol do nosso time.
Recusei. Logo o Nivaldo apareceu, já oferecendo vaga no time dele, que aguardava o perdedor do primeiro jogo.
Quando a bola caiu de novo no quintal, o Ló — chefe da turma — foi até o meu avô negociar. Voltou com a condição: eu jogaria a próxima partida. Vovô, então, abriu o portão.
E pronto. Entrei. E, por causa disso — e dos gols que passei a fazer — nunca mais deixei de jogar entre os grandões da Praça Ary Parreiras.
No fim das contas, a vida ensina de vários jeitos. Até numa pelada de rua. Porque, no fundo, é tudo uma questão de interesse, de troca, de pressão. Na política, não é muito diferente: se o eleitor recebe alguma vantagem, vota; se o deputado também recebe, vota em quem paga. E, como na Rua José da Silva Bastos, sempre há um mandão dando as cartas — lá, o Seu Vicente Dutra; aqui, quem ocupa a cadeira chamada poder.
Entenderam?

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