Nada mudou
Tempo de políticos
A gente vai ficando mais velho e o tempo vai nos ensinando a entender certas coisas. As descobertas, muitas vezes, são interessantes — e, em alguns casos, até surpreendentes. Outras, porém, vêm carregadas de um gosto amargo, como a lembrança de um dia de eleição na minha Miracema.
Tudo aconteceu no meu cenário favorito: a Praça Ary Parreiras. Ali estavam também o meu refúgio — a casa — e o meu mundo — o bar do meu avô, Vicente Dutra.
O tempo passa… e, aos poucos, vamos desvendando nossos traumas, nossas certezas e até os motivos de certos bloqueios que carregamos pela vida. Decisões que poderiam ter sido diferentes, caminhos que talvez fossem outros. Mas tudo tem seu tempo, como já dizia o saudoso Tito Madi: há tempo para tudo — amar, crescer, brincar… viver.
Com a aproximação de mais uma eleição — Presidente, Senador, Deputado, Governador — e tomado por uma saudade danada da terrinha, já que há meses não volto por lá, me veio à memória um episódio que me marcou profundamente. Talvez tenha sido ali que comecei, sem perceber, a me afastar da política. Primeiro na juventude, depois na vida adulta — e até hoje, já na chamada terceira idade.
Curioso, porque sempre estive por perto.
Nos anos 60, tive o privilégio de ser garoto de recados da Câmara de Vereadores. Naquele tempo, formada por homens que representavam, de fato, a nata da sociedade local. Prefiro não citar todos os nomes, para não correr o risco de esquecer algum, mas figuras como Jofre Salim, Antônio Laureano, Armando Azevedo, Nilo Ronzê, Nilo Lomba, Jamil Cardoso, José Carvalho, Salim Bou-Issa — entre tantos outros — me fizeram acreditar que, quem sabe um dia, eu também poderia seguir por aquele caminho.
Altivo Mendes Linhares, grande liderança da cidade, frequentava o bar do meu avô. Eram próximos — amigos, quase parentes. Era ele quem me incentivava:
— “Ele leva jeito, Vicente.”
Eu circulava pela Prefeitura, pelo fórum — tudo ali, na mesma praça — fazendo pequenos serviços para vereadores e juízes, aprendendo, observando.
Parecia um caminho natural.
Mas, como quase sempre acontece… havia um “porém”.
E ele veio com força.
Uma discussão, iniciada nas mesas do nosso bar, por gente que não entendia — ou não aceitava — a liberdade de opinião, ganhou as ruas. Virou briga. Virou confronto. Uma verdadeira batalha campal. Felizmente, sem vítimas fatais.
Tudo começou por algo que hoje parece até distante: a distribuição de cédulas eleitorais. Naquele tempo, o voto era assim. Um cabo eleitoral se recusou a trocar suas cédulas pelas do adversário.
Pronto.
Ali começou a guerra.
E ali, também, começou o meu desencanto.
Desde então, nunca mais consegui olhar para a política da mesma forma. O que vi naquele dia — a intolerância, o fanatismo, a falta de respeito — ficou marcado.
Hoje, ao ver discussões acaloradas nas redes sociais, sinto um déjà vu inquietante. Mudaram os meios, mas não mudou o comportamento. Continuo me sentindo pequeno, impotente diante desse tipo de confronto.
Talvez a política tenha perdido um possível participante.
Ou talvez eu tenha ganhado paz ao ficar de fora.
Não sei.
O que sei é que política exige gosto, preparo e, principalmente, equilíbrio. Fazer política com elegância e sabedoria sempre foi para poucos.
Muito poucos.
E eu, sinceramente…
prefiro continuar aqui, do lado de fora, só observando.

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