Geniais professores de bola

           Memórias da bola

Outro dia, lendo uma entrevista de Pep Guardiola, hoje no Manchester City, me peguei viajando no tempo. Não para a Europa dos estádios modernos, mas para os nossos campos de terra, onde a bola quicava torta e, ainda assim, ensinava muito mais do que parece.

Disse o catalão, com sua prancheta invisível:

"Com Aguero em campo, guardo Gabriel Jesus. Prefiro dois atacantes velozes pelos lados. A defesa se preocupa com a velocidade… e se abre."

Bonito. Moderno. Aplaudido.

Mas não era novidade.

Maninho, lá atrás, nos anos 60 e 70, já cochichava esse futebol no ouvido da gente. Gostava da bola no chão, mansa, obediente. Queria o time dono do tempo — e isso, meus amigos, sempre foi coisa de quem entende. Pelas beiradas, dois ligeiros; por dentro, um que resolvesse. E atrás? Ah… atrás ele montava conforme o vento. Já vi zagueiro virar volante e volante virar zagueiro sem trauma nenhum. Alvinho que o diga, tantas vezes quarto-zagueiro improvisado, firme como gente grande.

E não parava por aí.

Bizuca, o nosso Adailton Pimenta, também enxergava diferente. No Vasquinho/Esportivo, abriu mão do tal volante “brucutu” — peça quase obrigatória naquele tempo — e apostou na bola correndo mais que os homens. O único que fugia à regra era Geraldinho: elegante, técnico, mas, vez ou outra, exagerado na força, como todo bom volante que se respeitava.

Lembro de um jogo contra o DER, desses que ficam guardados no canto bom da memória. A ideia inicial era força contra força: Zé Paulo e Otavinho para encarar Pula N’Água, Capela e companhia. Mas futebol, como a vida, adora uma surpresa.

Entramos com Thiara pela direita, Cacá pelo meio e eu pela esquerda.

Fernando Nascimento, mestre dos mestres, olhou aquilo e decretou:

"A vaca foi para o brejo."

Foi mesmo.

Mas não a nossa.

Bizuca simplificou tudo numa frase que até hoje ecoa:

"Não dividam. Façam a bola correr. Deixem os grandões cansarem."

E foi um baile.

Correria inteligente, bola leve, cabeça no lugar. Quando vimos, já estava um… dois… três… quatro… cinco a zero. E sem precisar trombar com ninguém.

Futebol, no fim das contas, nunca foi sobre força. Sempre foi sobre entender o jogo um segundo antes.

Por isso digo, sem medo de errar: Maninho era técnico para ter ido longe. Talvez começasse pelos pequenos do Rio, desses que moldam caráter e revelam ideias. Mas não ficaria ali por muito tempo. Futebol reconhece quem pensa.

Às vezes demora.

Hoje, quando vemos Pep Guardiola ser chamado de gênio, eu apenas sorrio.

Já vi esse filme antes.

E, modéstia à parte, com poeira no campo e muito mais verdade.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Miracema em nós

A mesma praça?

Encontro de velhos camaradas