Salame ou mortadela?

Agora pela manhã, hora sagrada de buscar o pão. E, claro, isso sempre termina em história.

Na padaria, encontro o Edu — velho parceiro dos tempos de Armazém e da clássica fila do pão. Estava ali, firme, atrás de uma mortadela para matar a vontade. O pão, bem moreno, recém-saído do forno, foi a isca perfeita. Ele pediu sem pensar muito.

Eu, que não sou de negar convite desses, fui na onda. Mas com juízo: levei só quatro fatias fininhas, respeitando a vesícula já castigada depois de um fim de semana dividido entre futebol e mesas de bar.

Na volta para casa — coisa de duzentos metros — fui pensando na nossa merenda lá do tempo do Grupo Escolar Prudente de Moraes, em Miracema. Naquele tempo, o luxo era simples: um pão com salame na venda do seu João Custódio… ou então aquele pão preparado pela minha mãe, dona Lili, ainda de manhã, guardado com carinho na merendeira (sim, tinha disso).

Muita gente já me perguntou por que essa minha preferência por mortadela ou salame. Sempre respondi a mesma coisa: é memória. É passado. E tem gosto de felicidade. Pra mim, um pão com salame bem feito bate qualquer pão com presunto — que, diga-se, só me convence mesmo quando vira misto quente, no pão de forma, com queijo prato. E tem que ser prato. Mussarela não entra nessa conversa.

Histórias com pão e salame? Tenho várias.

Uma delas aconteceu em 10 de maio de 1968, em Itaperuna, cidade vizinha a Miracema, que comemorava mais um aniversário de emancipação. Nosso TG 217 foi desfilar por lá.

Depois de cruzar a Avenida Cardoso Moreira, sob um sol que não combinava com o mês de maio — que naquele tempo costumava ser frio de verdade —, eu, já cansado de tocar piston na bateria do TG, sentei num degrau para descansar.

Foi quando a porta se abriu.

E veio aquele cheiro.

Cheiro de pão saindo do forno.

Era uma padaria.

Entrei sem pensar duas vezes:

— Tem salame?

Itaperuna tinha a famosa fábrica Fluminense, que fazia um salame respeitado. Havia quem jurasse que era de carne de cavalo — mas, sinceramente, nunca me importei com isso. Cresci com aquilo no balcão do bar do meu avô.

Pedi duas bisnagas — e aqui vai a explicação: pão grande, coisa de vinte centímetros, bem tostado, daqueles que estalam na mão. Mandei colocar cem gramas de salame em cada uma.

Voltei para o degrau.

Primeira mordida… silêncio absoluto.

Quando já me preparava, feliz da vida, para atacar a segunda, surge ele: meu líder, o Sargento Couto.

— O que está comendo, Picanço?

— Pão com salame, Sargento.

— Deixa eu experimentar?

— Claro.

Erro estratégico.

Nosso querido e saudoso Sargento Couto não experimentou. Ele simplesmente devorou o pão.

Sem cerimônia.

Sem piedade.

E ainda me chamou:

— Venha cá… peça mais dois pra nós. Eita trem bom, sô!

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